Revisão crítica mostra por que exames justificados superam riscos mínimos e como otimizar a dose sem perder qualidade.
Os efeitos deletérios de altas doses de radiação são conhecidos desde os primeiros meses após a
descoberta dos raios X, em 1895, e sobre eles há consenso científico. Nas baixas doses — faixa em
que se situa praticamente toda a radiologia odontológica — esse consenso não existe. É nessa lacuna
que prospera a radiofobia: pacientes que recusam exames e profissionais que hesitam em
prescrevê-los, mesmo quando uma radiografia panorâmica entrega cerca de 20 μSv, o equivalente a
apenas 2,5 dias de radiação natural de fundo nos Estados Unidos.
Uma revisão crítica publicada em 2025 na Brazilian Oral Research revisitou os princípios ALARA,
ALADA e ALADAIP e a base científica que os sustenta. A mensagem central responde à dúvida que o
dentista enfrenta ao indicar um exame: quando justificados, os exames por imagem trazem
benefícios que tendem a superar riscos baixos. O trabalho também evidencia uma diferença decisiva
entre modalidades: a tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) de campo de visão
reduzido registra cerca de 50 μSv, contra aproximadamente 2.000 μSv de uma tomografia multislice
de cabeça — o que posiciona a TCFC como a via tridimensional coerente com a otimização de dose
na odontologia.
Três siglas, uma mesma lógica: justificar e otimizar
A proteção radiológica foi construída a partir de danos reais. As lesões se multiplicaram durante a
Primeira Guerra Mundial o que levou à criação de comissões internacionais — a ICRU, em 1925, e a
ICRP, em 1928. Desde então, os princípios evoluíram em camadas complementares:

Os três compartilham dois pilares. A justificação determina que o exame só seja realizado após
avaliação clínica que evidencie benefício superior ao risco. A otimização reúne tudo o que reduz a
exposição sem comprometer a imagem: colimação para um campo de visão (FOV) menor e
protocolos com tempo de aquisição mais curto.
O ALADA desloca a pergunta de “quanto menos, melhor” para “qual a menor dose que ainda
responde à pergunta clínica”. Entre suas recomendações estão selecionar exames conforme a
necessidade individual do paciente, e não por rotina, colimar o feixe apenas na área de interesse,
ajustar parâmetros ao porte infantil e usar a TCFC somente quando necessária.
Na prática, isso significa que toda solicitação precisa vir acompanhada de uma pergunta clínica clara.
É ela que define se o caso pede uma periapical, uma panorâmica ou um volume tomográfico — e, no
caso da TCFC, qual o menor FOV capaz de respondê-la.
Quanto de radiação um exame odontológico realmente entrega
A revisão compara as doses efetivas medianas dos exames com a radiação natural de fundo nos
Estados Unidos, estimada em 3,1 mSv por ano:
- Telerradiografia cefalométrica: 5 μSv — 0,6 dia de radiação natural
- Radiografia panorâmica: 20 μSv — 2,5 dias
- TCFC de FOV pequeno (<6 cm): 50 μSv — 6 dias
- TCFC de FOV médio (dentoalveolar, arcada completa): 100 μSv — 12 dias
- Periapical total com sensor CCD: 100 μSv — 12 dias
- TCFC de FOV grande (craniofacial): 120 μSv — 15 dias
- Periapical total com PSP ou filme F: 200 μSv — 24 dias
- Tomografia multislice de cabeça: 2.000 μSv — 8 meses

O dado mais revelador não é o valor absoluto, mas o contraste. Uma TCFC craniofacial completa
corresponde a cerca de 6% da dose de uma tomografia médica de cabeça. E um levantamento
periapical completo com filme ou PSP pode expor o paciente a quatro vezes mais radiação que uma
TCFC de FOV reduzido — o que desmonta a percepção de que a tomografia é, por definição, o
exame “pesado” da odontologia.
A escala populacional reforça essa leitura. Na composição da dose médica e de consumo da
população norte-americana, os exames odontológicos respondem por apenas 0,26%, frente a 47%
da tomografia médica. Em Ramsar, no Irã, a radiação natural chega a 260 mSv por ano: um único ano
vivendo ali equivale a cerca de 2.166 TCFCs craniofaciais ou 13.000 panorâmicas.
O modelo LNT e o limite do que se consegue medir
Baixas doses são aquelas abaixo de 100 mSv. Os riscos atribuídos a essa faixa não foram medidos:
foram extrapolados das altas doses pelo modelo linear sem limiar (LNT), que embasa o relatório BEIR
VII. A revisão reúne um conjunto consistente de questionamentos a essa extrapolação:
- Entre sobreviventes das bombas atômicas, exposições abaixo de 100 mSv não resultaram em aumento de câncer
- A Health Physics Society recomenda não estimar riscos abaixo de 50 mSv em um ano ou 100 mSv acumulados na vida, além da radiação natural.
- A AAPM considera indetectáveis os riscos abaixo de 50 mSv por procedimento ou 100 mSv em múltiplos procedimentos em curto período.
- A radiação natural de 3 mSv/ano gera de 3 a 30 alterações de DNA por célula por ano — quase 2,5 milhões de vezes menos que as mutações espontâneas do metabolismo.
No projeto DIMITRA, em crianças submetidas a TCFC, foi detectado estresse oxidativo na saliva, mas
nenhuma quebra de fita dupla de DNA em células da mucosa oral.
Nenhum desses achados autoriza indicar exames sem critério, e a revisão mantém ALARA, ALADA e
ALADAIP como referência. O que eles mudam é o peso do argumento: a dose de um exame
odontológico, isoladamente, não deveria impedir uma investigação clinicamente necessária. A própria
AAPM afirmou, em 2021, que a decisão deve se basear em critérios clínicos, e não na dose de
exames anteriores.
Radiofobia tem custo clínico, e protocolo mal calibrado
também
A revisão aponta um efeito colateral da comunicação alarmista: pacientes que evitam exames e
profissionais relutantes em solicitá-los, com o risco de o tratamento correto não ser realizado.
A Academia Americana de Radiologia Oral e Maxilofacial foi além e recomendou abandonar os
protetores de chumbo em radiografia dentomaxilofacial, inclusive em gestantes e crianças. A dose
em tireoide, mamas e gônadas é insignificante, e a blindagem não reduz a exposição de forma
relevante, podendo gerar artefatos.
O outro lado do equilíbrio é igualmente relevante. A TCFC permite antecipar problemas com achados
mais precisos e precoces no complexo maxilofacial, mas os autores ressaltam que o protocolo de
aquisição precisa garantir dose suficiente para boa qualidade de imagem — caso contrário, a
justificativa do exame deixa de existir. Um volume subexposto não economiza radiação: desperdiça a
que foi entregue.
Da evidência à indicação: exame certo, FOV certo, laudo especializado
A revisão demonstra que proteção radiológica e investigação por imagem não competem entre si. O
caminho seguro está na combinação de indicação precisa, protocolo otimizado e interpretação
qualificada — os mesmos pilares de justificação e otimização que sustentam ALARA, ALADA e
ALADAIP.
Na Fenelon, essa lógica orienta a escolha entre exames bidimensionais, como Radiografia
Panorâmica, Radiografias Periapicais e Interproximais, e volumes tomográficos dimensionados para a
pergunta clínica — da Tomografia de Dentes Assinalados, com campo de visão restrito à região de
interesse, à Tomografia para Endodontia ou para Implantes quando a terceira dimensão é necessária.
Somados aos Laudos por Radiologistas Especialistas, esses exames permitem ao dentista indicar com
segurança técnica e oferecer ao paciente uma resposta objetiva, baseada em evidência, para a
pergunta sobre radiação.
Referência: Mendonça RP, Estrela C, Bueno MR, Carvalho TCAS, Estrela LRA, Chilvarquer I. Principles of radiological protection and application of ALARA, ALADA, and ALADAIP: a critical review. Braz Oral Res. 2025;39:e014. https://doi.org/10.1590/1807-3107bor-2025.vol39.014
